segunda-feira, novembro 07, 2005

Plante miséria, colha violência


(foto: David Henry/www.davidphenry.com)

This morning I woke up in a curfew;
(Nesta manhã acordei sob toque de recolher;)
O God, I was a prisoner, too - yeah!
(Oh Deus, eu era um prisioneiro também)
Could not recognize the faces standing over me;
(Não podia reconhecer os rostos à minha frente)
They were all dressed in uniforms of brutality.
(eles estavam vestidos em uniformes de brutalidade.)

How many rivers do we have to cross,
(Quantos rios a gente tem que cruzar)
Before we can talk to the boss?
(antes de conseguirmos falar com o chefe?)
All that we got, it seems we have lost;
(Tudo que conseguimos parece ter se perdido)
We must have really paid the cost.
(devíamos ter pago o preço)

That's why we gonna be
(E é por isso que estaremos)
Burnin' and a-lootin' tonight;
(queimando e saqueando esta noite)
Say we gonna burn and loot
(Iremos queimar e saquear)
Burnin' and a-lootin' tonight;
(Queimando e saqueando esta noite;)
Burnin' all pollution tonight;
(queimando toda a poluição esta noite;)
Burnin' all illusion tonight.
(queimando toda a ilusão esta noite)


A arte geralmente diz muito mais sobre a realidade do que o telejornal da noite ou o jornalão da manhã. "Burnin´ and lootin´", música de Bob Marley, foi usada na belíssima cena de abertura do filme "O Ódio (La Haine)". Em 1995, o diretor Mathieu Kassovitz já destrinchava o cotidiano dos subúrbios de Paris com mais vigor do que a CNN, a Reuters ou as reprodutoras de conteúdo tupiniquins (salve raríssimas excessões). Filmaço, vale a pena procurar na locadora.

Spike Lee, em 1989, contava a história da difícil convivência nos subúrbios de Nova Iorque no também belíssimo "Faça a coisa certa". Lars Von Trier foi mais fundo com o recente Manderlay, que estréia nos cinemas brasileiros nesta semana. Miséria americana, miséria francesa, miséria humana: parte indissociável do capitalismo.

O mais estarrecedor é a cobertura burra e sanguinária da mídia. Vale mais a imagem de um carro incendiado ou da tropa de choque descendo a borracha na multidão do que uma análise mais profunda dos fatos ou a busca das razões para tentar explicar o caos. "Vandalismo", "violência" e "confronto" aparecem muito mais do que "desigualdade", "racismo", "exclusão". Foi assim no massacre dos 500 anos, quando FHC e ACM desceram a borracha em índios, estudantes e cidadãos que protestavam contra a fanfarronada pra gringo ver em Porto Seguro. Foi assim em Seatle, Gênova e Praga durante os protestos altermundistas.

Foi assim também em Mar del Plata na última sexta-feira. A grande mídia reportou que os manifestantes argentinos tinham depredado e incendiado o comérico local em protesto contra a visita do terrorista Bush. Parecia que a padaria do seu Joaquim tinha sido vítima de uma horda de baderneiros. Uma análise um pouco menos rasa das imagens deixava claro os alvos dos incendiários: a Telefônica, joalherias, empresas de celulares e bancos, responsáveis simbólicos ou de fato pela miséria argentina dos anos 90, quando o traficante de armas Menem privatizou o que restava do país.

Em Paris, nos morros cariocas ou na periferia paulistana não é diferente: vale mais o escândalo policialesco que choca a audiência e desperta instintos de ódio, medo e xenofobia do que a busca pelas raízes ou, ao menos, a cobertura decente do que está acontecendo. Dizer que "manifestantes entraram em confronto com a polícia" ou que "vândalos incendiaram carros" como se anuncia a previsão do tempo ou os gols da rodada só alimenta a burrice generalizada. Como disse uma sábia amiga, talvez fosse melhor que a televisão deixasse de lado essa pretensão de mostrar "a verdade" nos telejornais e se dedicasse apenas à cultura e ao entretenimento.

Não defendo de forma alguma a violência, nem a justifico simplesmente pela miséria, por posições políticas, pelo racismo e pela xenofobia. No entanto, descartar a íntima ligação entre esses fatores e fazer das relações sociais complexas um espetáculo de sangue pelo sangue é um crime contra a inteligência e uma afronta aos miseráveis deste planeta. Talvez seja por isso também que os argelinos, marroquinos, tunisianos e cidadãos de outras ex-colônias francesas estejam queimando dezenas de carros a cada noite.

voltar ao topo

Comments:
Achei o post "off topic".
A imprensa faz bem em desassociar. Caso contrário, desigualdade social viraria justificativa. É um pretexto para gente sem cárater. Os manifestantes argentinos depredaram e incendiaram o comércio mesmo. Por casa dessas e outras, a esquerda tem fama de baderneira. Isso e a idéia de que todas as faltas do indivíduo podem ser atribuídas a sua origem social. Organizaram-se para pilhar, destruir, mas não se organizam para tentar alguma atividade produtiva.
As manchetes têm que ser VANDALISMO, VIOLÊNCIA E CONFRONTO e tomara que a polícia baixe o cacete mesmo.
 
Cara: Sem dúvida será difícil eu achar um comentário tão profundo e exato sobre essa questão no "telejornal da noite ou no jornalão da manhã". Que interessante a indicação dos filmes. Eu não vejo a hora de ver o Manderlay... Parabéns pelo blog!
 
Não costumo comentar, mas deu vontade.
O post era off-topic mesmo, vai para os "outros assuntos". Só pra deixar claro, como eu disse no final do texto: não sou a favor de nenhum tipo de violência e certamente acho que o mundo seria transformado de forma bem mais rápida com criatividade e inteligência no lugar da pancadaria.

Só não acho que toda violência seja "desvio de caráter". Quando uma pessoa queima um carro, talvez ela seja a única responsável por isso. Quando centenas de pesoas queimam milhares de carros ou milhares de pessoas destroem algumas lojas, acho que a coisa muda um pouco de figura.

Crime é uma coisa, conflito social é outra. O problema é que a mídia brasileira não consegue dissociar as duas, ou melhor, trata geralmente a questão social como criminalidade ou baderna. Por fim "re-recomendo" o filme "o ódio"...
 
"Quando uma pessoa queima um carro, talvez ela seja a única responsável por isso. Quando centenas de pesoas queimam milhares de carros ou milhares de pessoas destroem algumas lojas, acho que a coisa muda um pouco de figura".
Claro que não. Quando isso acontece é porque há lideranças que conseguem convencer as pessoas que o injustificável é justificável, talvez usando os seus argumentos. Mas cada um é responsável por seus atos. Basta lembrar o que aconteceu em São Paulo após um jogo de futebol, que foi exatamente a mesma coisa. Que justificativa social isso teve?
Queimar carro é crime. Várias pessoas queimando carros é baderna. Eles não têm "fome de comer mas fome da sobremesa alheia". Enquanto isso, em outros lugares pessoas na mesma situação se reúnem, formam cooperativas, partidos políticos, sindicatos, associações, fazem passeatas pacíficas... Não se queima 4000 carros de graça. A diferença? Não foram manipuladas e tem um espírito mais forte, caráter enfim.
A imprensa faz bem em dissociar, porque não tem nada a ver mesmo.
 
cara...

esse texto simplesmente arrepiou!! de verdade!

agora, frugal, vc acha que é baderna? a parada é sem rosto mesmo. na real ninguém sabe o que ta pegando, e é a partir disso, desses momentos que pode surgir a tal organização que vc tanto preza. essa hora, do quebra-quebra, é a hora do sonho. por incrível que pareça.
 
PS: “Periferia”, em francês, se diz “banlieu”, que é uma contração de “banir” e “lugar”: banidos para um lugar.
 
ótimo texto! a mídia só está se interessando pela contabilidade de carros queimados, que é o que emociona o confortável cidadão de bem, espírito elevado e caráter. nenhuma menção à insuportável tensão social que já vem crescendo por lá há décadas. grande parte dessa galera é oriunda das ex-colônias. a história não dá mole...
 
Esse comentarista aí de cima usa carros com vidro escuro, votou no Não, quer Serra para presidente (poderia ser a Roseana Sarney), acha todos os atos do MST coisa de bandido e desocupados, os índios devem ficar numa reserva irrisória, e o tio dele pode e deve continuar a retirar madeira de Roraima ou fazendo lobby no congresso, não vê problema algum em pagar uma taxa de mensalidade na USP ou qq escola pública, e a morte de 111 presos no Carandiru representou apenas 111 bandidos a menos.

O post nao é off topic, de maneira alguma. Não é a toa que os carros são os alvos da ira dos garotos excluídos da periferia de Paris. Eles representam o poder, o dinheiro, a felicidade que se compra, o status.
O apocalipse motorizado.

Um Ahmed nao tem chance nenhuma de emprego quando o outro candidato é um Jean-Pierre (li isso num jornalão), mesmo que o Ahmed seja filho de pais nascidos na França. A segregação lá estourou. É o oposto do que víamos até pouco tempo, de movimentos de garotos neo-nazistas, pobres também e que viam seus empregos ameaçados pela 'horda' de imigrantes, na França, Alemanha, Bélgica...

E eu, pessoalmente, não acredito na imprensa burguesa. Tem que fazer muita força para filtrar a informação e conseguir ver um pouco de realidade ali.
E não sei como garotos sem emprego, identidade, formação, cultura e maturidade poderiam se organizar em partidos ou agremiações. Isso nunca aconteceu.
Os partidos tentam, mas é dificílimo.

Divaguei e intui coisas no começo do texto. Tenho certeza que deve estar tudo errado. Sinceramente peço desculpas por exageros. Mas serve para ilustrar o esteriótipo do pensamento de direita, que muitas vezes viceja na mente do operário.

Saudações, companheiros (ops) e bom pedal
 
Quando eu vi a notícia de que já tinha mais de 10 dias com tumulto, resolvi pesquisar na internet o porquê dos tumultos. Levei quase duas horas para entender a motivação dessas pessoas, porque todas as notícias só falavam da quebradeira e da repressão. Preferem mostrar o que vende, reproduzindo notícias de agências, que reproduziram de outro lugar, do que fazer uma análise inteligente da situação (em parte porque jornalistas de copy/paste são bem mais baratos que colunistas inteligentes). Imprensa é foda.

[E pô Wadilson, eu uso vidro escuro no carro, não esculacha! :)]
 
txt legal a respeito no http://dezoitobrumario.zip.net
 
Visitei o apocalipe algumas vezes, esperando um texto sobre o que acontece na França. Hoje, enfim. Bem, o que mais me chama a atenção nessas manifestações - e que acho totalmente pertinente a esse blog - é o alvo das mesmas: os carros. Nas fotos que vi, até tinha uns ônibus queimados, mas a grande maioria - põe grande nisso, milhares! - é de carros particulares. Legal ver que os manifestantes não estão queimando as casas dos outros, e sim seus tão queridos e simbólicos carros, que ocupam o espaço público sem pedir licença. Talvez se eles estivessem queimando casas, a reação não fosse tão violenta ;-)

Sem comentários a cobertura de mérdia... e quanto ao post do Frugal, veja que não há um líder. Veja que os protestos acontecem em diversos lugares, iniciaram por um motivo fútil, que simplesmente foi um estopim para uma coisa maior. Ilegal sim, criminoso não.

O pior é que no final, a situação dos imigrantes provavelmente vai piorar.. lá venho eu pessimista, né!

parabéns pelo conteúdo, Thiago! abração DUDU
 
Não entendo por que as pessoas quando discordamos delas, partem para ataques pessoais. Não tenho carro não, não tenho nem bicicleta, aliás. Ando a pé, uso o transporte público (menos do que ando a pé). Ainda que não goste de carros, é uma coisa voluntária. Não acho que as pessoas não têm o direito de tê-los, como alguns aqui e certamente como esses franceses.
Ninguém que tem uma Mercedez ou uma Ferrari deixa seus carros na rua... foi a classe média e os pobres que foram atingidos, professores, médicos, vendedores... que perdeu o fruto de meses de trabalho numa noite.

Achar que não líderes para a barbárie é muita ingenuidade.

Aqui perto de casa formaram uma cooperativa (acho que informal) de catadores de recicláveis. São excluídos, jovens, de pouca educação, muitos nordestinos (e sofrem o preconceito que o Sul tem com eles, da mesma forma que esses franceses), mas se organizaram e vivem melhor do que muita gente que tem carteira assinada por aí. Com certeza, são mais livres. Trabalhei em muitas coisas mas nunca fiz nada que se comparasse em termos de retorno para a coletividade. É claro que não tem nenhum glamour, será que é isso que eles querem? Acho que não dá para comparar as oportunidades da França c com as do Brasil, até o lixo deve ser bem mais rico. Que eu saiba, Paris é um dos maiores centros de turismo do mundo (ou era antes dos atos do "conflito social"), não tem oportunidades? Será?
Resumindo, sobra ódio contra quem tem mais (e nem são os donos dos meios de produção) e falta criatividade e força de trabalho.
Enquanto isso, os ricos e as corporações não estão nem aí e a classe média treme (com razão), porque até morte já teve.
Batamos palmas.
 
Queimar carros não é violência!!!
Nós que temos resquícios da ditadura e idolatramos os bens materiais. O importante é não atacar as pessoas. No Brasil um policial ignorante fusilaria uma pessoa pra defender um carro e acha certo.
Queimem todos os carros!!!!!
 
Também li o apocalipse motorizado, anonymous. Só que li criticamente, como qualquer coisa que leia. Tem muitos fatos e dados interessantes e tem textos que beiram o terrorismo, como essa frase que você citou.
Sejamos serenos.
 
Me enganei era "acabem com todos os carros".
 
pra mim o texto está no tópico... enfim, mais um grande texto nessa grande página. A questão que parece clara é a seguinte: não necessariamente alguém que goste de bicicleta e que não goste de carros é alguém de "esquerda". O Frugal mostra isso. Outros posts nos comentários aqui já mostraram isso em outras oportunidades. Neutralidade política não existe. Está clatro que tanto blog quando o livro de mesmo nome são de "esquerda", e ainda bem. Aconselho ao Frugal ler com mais atenção o texto Carros e Remédios do livro Apocalipse Motorizado. As tecnologias não são neutras, e é impossível questioná-las sem questionar as significações sociais que elas expressam, ou seja, a sociedade em que elas ganham vida. A crítica a automóvel só é consequente quando é ao mesmo tempo uma crítica social. E é por isso que esse blog é tão foda...
 
Muito fóda este blog !!
os acontecimentos na França estotraram como uma panela de pressão,mas tem gente aí q quer apagar o fogo com mais gasolina,como o tal Frugal.
O cara pode até ter o direito de discordar,mas se acha q a polícia deve baixar o cacete pra manter a "ordem" é simplesmente coisa de fascista básico!
Então,é melhor alguém levar porrada do estado q um carro ser incendiado ?
Sinal dos tempos...
A propósito,"roubei" essa linda foto(copyleftianamente falando)pra botar no blog q faço.

Abraços e saudações subversas!
 
Ned, ser de esquerda não é apoiar a baderna. Nem fechar os olhos para a responsabilidade pessoal dos indivíduos, atribuindo tudo a causas sociais. A esquerda tem vários "sabores", prefiro os menos amargos.
 
Juca,
A polícia precisa agir, mas, você tem razão, não precisa ter porrada, já há outros meios. Defender o patrimônio não é fascismo, assim como defender a baderna não é ser de esquerda. Ninguém reclamou do toque de recolher, essa sim uma medida fascista.
Essas manifestações não vão levar a nada, a não ser perda de patrimônio de pessoas comuns , morte (já houve 1), aumento do preconceito, queda do turismo. Chamam atenção pelo curto tempo que durarão para os problemas dessas comunidades, mas existem outras maneiras de fazer isso.
Gandhi, Thoreau, Luther King também contestaram os sistemas vigentes, e convenceram pela força de seus argumentos ou por sua capacidade de organização ou mobilização.
Tivessem eles optado pela queima de carros e carruagens, nem saberíamos quem eles são hoje.
Me causa espécie que alguém "comemore" a violência.
 
Frugal... Só pelo fato de vc chamar de "baderna", tentando com isso des(qualificar)as ações que estão ocorrendo já diz muito. Ser de esquerda não é apoiar qualquer ato ilegal necessariamente. Mas querer desqualificar protesto social chamando de "baderna" é sim coisa de direita. E viva a baderna sim!!! Você deveria pesquisar pra saber a origem dessa palvra, é bastante interessante. Estar preocupado com o patrimônio não com a condição de segregação que vivem essas pesosas é realmente coisa de direita. Os trabalhadores só deixaram de ser excluídos e ganharam os direitos sociais que hoje gozamos porque teve muita baderna sim! Ou como vc acha que os conservadores vim os protestos dos oper´rios no início do século XX quando gnhavam uma ninharia e trabalhavam mais de 12 horas por dia sem direitos sociais algum e aind sendo discriminados? Até a barat de revolta contra a bota quando se vê esmagada por ela. E só a revolta faz a sociedade progredir em justiça e liberdade. E que viv a revolta. A médio e longo przo certamente esse levantmento vai repercutir favoravelmente na Europa para essa cmada segregada.
p.s. a propórsito ver violência em destruição de propriedade é mais um indício de direitismo. Vai ver o que as pessoas nas periferias e morros do mundo passam no dia-a-dia... isso não é violência nao? Se elas morrerem quietas sem queimar nem destruir nada é o que importa para vc, pelo jeito.
 
Não vou abordar os vários aspectos intrínsecos ao texto, apenas um:
"Aqui perto de casa formaram uma cooperativa (acho que informal) de catadores de recicláveis. São excluídos..., mas se organizaram e vivem melhor do que muita gente que tem carteira assinada por aí."

É uma grande ilusão achar que alguém que saiu de uma situação de "extrema miséria" para um grau de "miséria menor" atingiu necessariamente uma condição "digna" de vida. Não é porque alguém resolve taxar um salário mínimo de "tantos R$", que outros tantos que passaram a ganhar esses "tantos R$" deixaram de viver em condição desumana.
 
O péssimo dessa manifestação (ou movimento, baderna, mobilização, justiça, queima de fogos, fuzuê, carnaval, dêem o nome que for) é que quem se fode é a classe média, que também é manipulada por quem tá em cima.

O tio guarda a grana dele a vida inteira pra com 50 anos ter uma casinha e um carro, lá vai um "manifestante" queimar o carro dele. Isso é de doer. O cara não é culpado só por ter um carro, o cara não é culpado porque seu governo hostilizou e segregou os imigrantes, o cara não é culpado por existirem pobres. Pelo menos não de uma forma consciente, ele é levado pela maré como um barco sem vela. E mesmo que seja alguém que aprendeu a hastear a vela para rumar contra o vento, ele vai ter seu carro queimado - e, quiçá, sua vela chamusque e ele resolva guardá-la novamente.

Acho que é por isso que o Frugal classifica como baderna. Um movimento organizado atingiria quem pode mudar a situação. Sacrificar quem não tem nada a ver com o assunto para ver se o governo se comove, pra mim é terrorismo. E o pior, não resolve.

Teria muito mais resultado se eles todos resolvessem se sentar em uma grande avenida e só sair de lá quando o problema fosse resolvido. Se a polícia os tirasse de lá com violência, eles poderiam se reunir novamente na rua de trás, repetindo a manifestação pacífica enquanto fosse necessário. A repressão seria menor e eles ganhariam o apoio do quarto poder, a imprensa.
 
anonymous,
...
violência:
ação ou efeito de violentar, de usar força física (contra alguém ou algo) ou intimidação moral contra (alguém)
baderna:
situação em que rouba a desordem; confusão, bagunça
vandalismo:
ato ou efeito de produzir estrago ou destruição de monumentos ou quaisquer bens públicos ou particulares, de atacar coisas belas ou valiosas, com o propósito de arruiná-las

Todas do Houaiss, onde aliás vi a etimologia de baderna, não mudou minha opinião.
Cada um com seus heróis, eu prefiro o pessoal da cooperativa.
 
Só vi o que o william escreveu depois. Concordo do início ao fim.
 
tbém acho interessante, mas volto a repetir: se trata de um outro momento. realmente isso nos sensibliza aqui, dada a situação dos transportes públicos locais, mas lá o barato é diferente.. abs
 
Tenho e uso carro com vidros escuros, ando pouco de bicicleta, sou historiador (e não jornalista) e não faço a mínima idéia do que queira dizer a expressão "off-topic", mas mesmo assim vou escrever um comentário "off-time", já que como disse alguém acima, "a história não dá moleza".

O melhor de tudo isso que aconteceu na França (e está acontecendo), como alguém aí em cima já disse, é que não há organização, não há partido, não há causa, não há líderes nem liderados. Citando "o ódio", já chegamos no fundo poço. Agora é hora de acordar.

Se não acredito na imprensa burguesa, isso também vale para a democracia burguesa. Democracia de merda que garante a igualdade de direitos, mas não garante a igualdade de acesso a eles. Democracia paga com grana que mata e explora. Desse "jogo democrático" em que preciso autorizar alguém (por meio do voto) a pensar e agir politicamente por mim (me representar), eu não participo mais. Não quero mais achar que é possível conceber líderes e liderados; pessoas que "organizam" e pessoas que "são organizadas". Quem disse que uns são mais capazes que os outros? É essa diferenciação que faria da ação dos oprimidos franceses uma ação "legítima"?! Ora, por favor...

E as pessoas em geral estão se dando conta disso. Se a hora é de acordar, é hora de quebrar tudo mesmo. Espontaneamente. Se o automóvel fosse só o meio de locomoção das pessoas (ou se fosse só o fruto do suor de anos de trabalho etc.), talvez pudéssemos dizer que além de ilegal, queimar carros é ilegítimo. Mas acho que temos de ter culhões mesmo de assumir efetivamente que carro não é só isso. Assim como arma não é só algo que tem a função de matar. Todas as representações que fazemos dessas coisas atuam tanto na hora em que as compramos quanto na hora em que as vamos destruir. Ninguém queimou o carro do fulano (pedreiro, contribuinte do INSS há 30 anos, no terceiro mês da prestação do automóvel 1987 que ele comprou financiado em 60 vezes). Os que se queimaram foram os carros da Volkswagen, da Ford, da Fiat etc. Foram os carros que representam aquilo que eles não têm, aquilo que é vendido socialmente como sinônimo de felicidade, de masculinidade, de vigor, de status.

Isso é o que foi queimado. E se alguma revolução se fizer agora, ela será sem nenhuma teoria; sem nenhuma organização. Onde isso vai dar, não fazemos a mínima idéia. Mas que é uma bela sacolejada, isso é mesmo. Uma sacolejada que pode ser muito maior do que as "revoluções" que já vimos acontecer por aí. Que bom!

Que bom que existe um programa idiota na TV brasileira que mostra a vida de dois caminhoneiros como se fosse a vida mais feliz e próspera que alguém poderia ter. Um dos caminhoneiros é o Antonio Fagundes. O cara assiste àquela merda na TV e acha que se ele for caminhoneiro vai ter uma vida daquelas, pegar todas as mulheres lindas que ele sempre desejou e ser feliz para sempre. Se puder, compra um caminhão (Volkswagen, modelo do caminhão da série, que deve custar a bagatela de uns R$200.000,00). E descobre que aquilo tudo é uma grande mentira. Descobre que ele só vai se fuder como caminhoneiro. Esse cara vai começar a sentir dentro dele um soprinho que diz que algo precisa, definitvamente, mudar. Esse cara, talvez por meios violentos, pode ser um agente de alguma revolução. Mas só como sujeito; jamais como liderado.
 
É muito bom que o Frugal tenha botado fogo e iniciado esta discussão.
Por mais que queiramos com a mente consciente não aceitar a violencia - e eu procuro por este caminho - o fato é que estamos imersos num caldeirão prestes a explodir, economicamente, socialmente. (Existencialmente então nem se fala).
Sua proposta é por mais ordenação e mais direção. Partidos, agrupação, legitimidade.
Não sei mas eu sinto um ranço nisso aí. E mais, desconfio que os 3 quartos do planeta que já foram ejetados como lixo social não vão se sentar nas avenidas das grandes cidades para meditar pacificamente por um mundo melhor. Céu! Como seria bom!
Temo que eles vão continuar sendo pacificamente mortos aos poucos ou aos montes e contabilizados como danos colaterais.
Pois quem é que vai organizar essa "baderna" para que não se reproduza a violencia?
Gandhi, Thoreau.
Foram homens maravilhosos com ideais elevados e que souberam lidar com suas pulsões. Mas são gotas num oceano inteiro! Tantos são os que são levados pela correnteza dos tempos e ainda mais, dos tempos "modernos"! Os bons morrem. Os maus vivem por aí.
Eu viverei de acordo com os princípios que fazem sentido pra mim. Mas precisamos de novas visões também. Todo esse gozo represado há séculos sob golpe de marreta não se desfaz num retiro espiritual, nem com um programa revolucionário, nem com um anti-programa revolucionário.
Penso que deverá ser uma coisa totalmente nova, uma explosão, a vida, e já partiríamos para a poesia e eu não seria mais racional neste comentário.
Talvez já tenha começado aqui e ali, sem que possamos ainda ver.
Estamos nas sombras, Idade Média total. E nem é por causa de uns milhares de carros queimados.
 
Sinto cheiro de autoritarismo em ambas as falas. Ressentimento puro move uns; facilidades vis, outros. Porém o que permanece deste distúrbio paris-circense para mim (oh! boa educação cristã!) é a total incapacidade de lidarmos com a própria vida, de enfrentarmos o que nos é próprio.

Idealizar estes jovens como uma espécie de movimento histórico, e pior, tentar dar-lhes sentido, peca, ao meu ver, com toda a possibilidade de mudança. São jovens, ponto. Discrimandos, sem dúvida. Mas disso depreender aquilo já é demais.

No entanto classificar baderna como coisa menor ou leviana é muita pequenês. Coisa frugal, verdade. Ou você não reconhece a importância da violência na vida. Nunca transei bem comportado, nem briguei pedindo desculpas.

Temos que estar atentos ao novo. Não podemos comprometer o futuro por uma forçassão de barra teórica (pecado original de Marx), nem tão pouco pedir que seja agradável a mudança.

Como diria meu querido Oswald: ver com olhos livres...
 
Não era para eu fazer um comentário egocêntrico, mas já que distorceram o meu nick, preciso explicar:
Uso frugal no sentido que a palavra adquiriu em inglês:
"careful to only buy what is necessary". Em português, o sentido é mais amplo. De qualquer forma, mesmo em português, frugal é uma palavra positiva também. Aurélio ou Houaiss explicam isso.
Quanto à violência, é claro que não estamos nos referindo a vigor, energia ou contundência; jogo de palavras é a ferramenta preferida dos demagogos, cuidado.
 
Gostei das reflexões do Ped.
 
Postar um comentário

<< Home